6.3.12

Lembranças de uma gravidez



O assim e assado entra em ritmo de celebração dos 3 anos de Janaína. E as lembranças da gravidez voltaram forte.

Primeira foto de Janaína no mundo.


Uma única vez sem anti-bebê, seios inchados, dois exames de farmácia positivos. Os medos foram aplacados pela carinhosa recepção do marido. Decidimos ir ao médico com a suspeita de uma simples infecção urinária. Fomos ao famoso Hospital Universitário de Berlim – Charité. Era como se as duas antigas Alemanhas se encontrassem, ainda, em um mesmo lugar. As instalações eram austeras e históricas. Serviço de hotelaria, nota zero. Atendimento e equipamentos, nota dez. Os exames mostraram duas bolinhas na barriga: uma grande e outra pequena. Primeira paranóia: gêmeos. Segunda paranóia: câncer. Medo real: três médicos alemães e uma suspeita - dupla gravidez, sendo uma tubária. Fiz uma intervenção cirúrgica no mesmo dia. Antes, telefonemas absurdos aos familiares (não, não é ótimo). Na volta, ainda, sedada, só falava em alemão com o marido – sempre achei que essa língua era uma expressão de loucura. De madrugada, a médica nos informou que não fizeram nada, pois descobriram que a bola grande era uma endometriose. Tecnicamente, continuava grávida. Fiquei dois dias e duas noites em um quarto multicultural com outras pacientes. Diálogos limitados pela língua. Foi a primeira vez que vi os alemães frágeis e humanos, como eu.

A bolinha vingou e, no percurso de nove meses, se transformou em Janaína. Atravessamos juntas as quatro estações. No meio do verão, a gravidez se confirmou. Passei os primeiros três meses meio maluca. Praticamente, era uma adolescente de 38 anos querendo provar para o mundo que nada ia mudar. Enchi o saco do marido e fomos para a Grécia celebrar meu aniversário. Mesmo enjoada, tomava uma cerveja antes das refeições. Fiz nudismo. Peguei carona com estranhos sem entender uma palavra do que diziam. Alugamos um arremedo de moto e nos perdíamos pelas estradas. Foi uma bela loucura. Eu me sentia livre e solar. No outono, minha estação predileta, iniciei o inevitável caminho da introspeção. Gravidez é uma viagem para dentro. E com as mudanças da paisagem, eu, também, ia mudando por dentro e por fora. Quando o inverno chegou, os dias eram curtos, a luz tímida e meus movimentos eram lentos. Aliás, foi o inverno mais rigoroso e não é possivel fazer muito coisa a -17o C. Eu era a própria ursa e sentia um sensação agradável de hibernar. Tinha comida boa para o corpo e para alma.

Quase na primavera, com 38 semanas e dois dias, depois de 8 horas de trabalho parto, Janaína chegou. A menina nunca perdeu tempo, sempre foi rápida e conectada com a vida. Durante o parto, me comuniquei por SMS com a madrinha da Janaína, que estava em São Paulo. Eu precisava me comunicar com o Brasil. Eu não tenho desejo de colocar o parto em palavras. É uma vivência minha, do marido e da parteira que nos ajudou.


A lembrança mais forte desse momento de transição é uma imagem em movimento. Nosso carro atravessa a Karl Marx strasse à caminho do hospital. Ouvimos o trenzinho caipira de Villa Lobos, o céu tem um cinza escuro e as luzes estão se acendendo. Estamos de mãos dadas e temos a certeza, absoluta, que a vida nunca mais será igual. E, não foi.

8 comentários:

CAT IN THE HAT disse...

LINDO!!! Simplesmente... Também lembro todos os anos, nestes quase 15 anos de existencia do Thi, os dias que antecedem seu nascimento e as sensações belas e engraçadas que significam os 9 meses de gestação... Mês que vem é meu tempo de relembrar... bjks, Dani... Inté... Monike

Daniela de Paula disse...

Oi querida,
É um loucura, não é? O tempo passa e as sensações permanecem vivas na gente. Que bom! Bom tempo de relembrar!

Escuta Analítica. disse...

Minha amiga, que texto lindo. Tão difícil falar de gravidez sem tocar em escatologias psíquicas e fisiológicas...Lembro muito do dia em que a Jana nasceu. Felicidades, querida, para vcs. Bjs.

Anônimo disse...

Dani querida, adorei teu blog e, particularmente o relato da tua gravidez. A foto é adorável e me cativa pela sua doçura. Vou tentar reproduzir algumas receitas e depois te falo se ficaram boas. Também ando cozinhado bastante. Beijo grande da Ana

Daniela de Paula disse...

Oi Aninha, fiquei feliz com a visita. Com a vida dá voltas e cada dia fica melhor, não é? Saudades, amiga! um beijo,

RedeParede disse...

Lindo Dani, me emocionei. Beijos da sua prima e mais nova aquisição de amizade, Maca : )

RedeParede disse...

Lindo Dani, me emocionei. Beijos da sua prima e mais nova aquisição de amizade, Maca : )

Larissa Banister disse...

Que lindo amiga, li tudinho e fiquei emocionada ao conhecer um pouco da sua historia e da chegada da Janaina, vc escreve mto bem, fui lendo e vendo na minha cabeca o outono, a adolescente de 38 anos, a Grecia, o inverno geladissimo, vc no hospital... A Janaina eh uma fofa. Beijos =*